Os Marcos da Ceará Rádio Club

O Rádio Club no Ceará em 1934

Programação do 5 Aniversário
O Rádio Clube Cearense - pela Revista Rádio do Rio - 1924
Memória sonora - trechos de transmissões
Fotomemória - fotos da história da CRC
Artigos sobre o Rádio Cearense e a CRC
Paulo Cabral - precursor da mídia na política cearense

O Rádio Cearense

Apreciação de Cid Carvalho
(artigo escrito em 1979)

 

Quem testemunhasse os primeiros momentos do rádio, no Brasil, talvez não acreditasse nos  brilhantes caminhos que esperavam o então novo meio de comunicação. Por certo nem ao menos se pensaria em termos de massa, ao se observar a nova atividade, cujos primeiros idealistas se esforçavam por definir suas primeiras linhas mestras.

O mero entretenimento do primeiro público foi, de certo, a idéia inicial e o rádio passou a receber os grandes artistas do canto e eis que os cantores formaram grandes casts. As mais festejadas emissoras seriam sempre as que detivessem em seus quadros os cantores de mais renome. Ouvir rádio era conhecer as vozes mais lindas do país e, posteriormente através de temporadas memoráveis, as vozes do mundo. Enquanto isso, o disco, sucessor do cilindro de Edson, existente desde os primeiros momentos do século, passou também a ser uma opção lógica e racional.

De caminho em caminho, o teatro seria mais um e surge o formidável radioteatro, capaz de emocionar cidades e Estados e de, posteriormente, abalar os nervos do país.

Na década de trinta as emissoras de rádio começaram a proliferar, cada qual sendo pioneira em seus Estado, o nome da própria unidade federativa, como um belo modo de identificação e assim nasceu a estupenda Ceará Rádio Clube, a quem o destino reservaria dias dos mais marcantes e gloriosos.

Surgia a primeira Emissora cearense num panorama de progresso nacional, ante grandes emoções políticas e até mesmo crises institucionais. Mas o rádio era divertimento e, como tal, não iria ofender aos políticos perturbados e aos militares desviados dos quartéis, As notas mais agressivas viriam dos humoristas, caracterizados como duplas caipiras, cujo modelo maior seria a parelha Jararaca e Ratinho e, depois, Alvarenga e Ranchinho. Talvez, exatamente por isso, o lugar do receptor de rádio era a sala nobre de cada residência, Os gabinetes é que continham opcionalmente o formidável aparelho, Era impossível o rádio andar no bolso;  pendurado ao pescoço; integrar os automóveis de  então e, na família, no aconchego dos lares, deveria ocupar lugar cerimonioso ou naquelas salas fechadas, reservadas às visitas, com as paredes ornamentadas com os retratos dos melhores mortos e o chão amaciado pela presença de tapetes importados e compondo, o ilustre aparelho, ambiente com móveis escuros e coloniais, ou nos gabinetes reservados ao chefe da família, Gabinete de estudo; gabinete médico, gabinete do advogado, etc.

Mas, graças a Deus, o jornalismo espreitava os caminhos vários do rádio como atividade que começava a ganhar foros de grande importância. Tudo chegava a ele, mas a notícia ficava um tanto quanto de lado, pois afinal de contas o ensino da Sociologia havia sido proibido no país, havia um departamento de censura nos jornais, etc ., quando o rádio resolveu emancipar-se.

O jornalista foi finalmente chamado ao rádio e, tal como hoje, sua primeira presença foi das mais marcantes. As emissoras mais velhas, como por exemplo a Rádio Clube de Pernambuco, entregaram-se com afinco à nova atividade. De princípio os noticiários eram os mesmos dos jornais impressos e estes eram até depositados diante de locutores que ensaiavam um novo ritmo de leitura que, no entanto, só teria consagração nas vozes e estilos formidáveis de Carlos Frias, César Ladeira, Luis Jatobá, Antônio Maria, Paulo Cabral e, principalmente, Heron Domingues.

Os grandes jornais eram as fontes do radiojornalismo, mas depois, com a formação de equipes jornalísticas, ganhando estilo próprio e independente, a noticia radiofônica passou a ser transmitida com tanta instantaneidade que as equipes de jornais eram obrigadas a ouvir rádio.

Ouvir rádio ....Frase terrível: os intelectuais reagiam diante disso, Ouvir rádio era, na Argentina, dançar o tango  condenado pela alta sociedade .., Mas o poeta Manuel Bandeira, dos mais festejados de então, prestou entrevista banal e, entre o que gostava de fazer, veio a tal história de ouvir rádio, E outros intelectuais que ouviam a mesma coisa, levemente, passaram a admitir que também o faziam e, assim homens do rádio vieram a ser admitidos também como intelectuais: Ary Barroso, Antônio Maria e, principalmente, os autores de  crônicas do dia-a-dia, com títulos como "Boa noite para voce " Vinicius de Morais, um dos maiores poetas, já surgido na década de trinta, entre uma e outra viagem, na qualidade de embaixador, não perdia a oportunidade da interação com o novo grupo de profissionais, Os jornalistas foram chamados e o rádio passou a ser um mundo ...

Um mundo, eu disse, Mas o mundo era o objetivo do rádio, que passou a lutar por cada vez mais potência, Surgiram os grandes transmissores e a grande interação, As emissoras do Rio e São Paulo escutadas em quase todo o território nacional, um verdadeiro continente e também em países vários, Era a glória.

No exterior as emissoras norte-americanas, inglesas russas e suecas já mandavam suas vozes em busca de distâncias nunca imaginadas, especialmente graças à utilização das ondas curtas, O mundo passou a se conhecer melhor integrando províncias com grandes capitais; misturando filosofias e até propaganda de guerra; idiomas e dialetos: gírias e folclore e assim por diante.

Fortaleza, capital provincial, doce e meiga, com ares de menina moça ou de virtuosa senhora cantando  acalantos e declamando baladas de Heine, recebia nos fins da década de trinta sua primeira emissora.Falar o nome de Dummar era falar em progresso da terra e, assim, o grande empreendedor montou sua emissora no bairro das Damas, precariamente instalada, mas já capaz de receber Vicente Celestino, o rei Francisco Alves e o Rio boêmio através do Sílvio Caldas, Os cantores vinham de navio ou em aviões que desciam nas águas do Rio Ceará.., É lindo recordar tudo isto.

Durante muitos anos a nossa primeira emissora viveu sem concorrência, Em 1948 a Rádio Iracema já era uma grande realidade e, de princípio as duas rádios como se dizia, não conseguiram existir em paz, A Ceará Rádio Clube ou PRE-9, prefixo que a celebrizou, funcionava apenas durante algumas horas do dia, Nos horários nobres, Podíamos ouvir a voz saudosa de Lima Verde dizer:

“Senhores ouvintes, suspendemos nossa programação, mas retornaremos logo mais às 18 horas”

Este aviso poderia ser às 14 horas ou mesmo antes.
Com o advento da Rádio Iracema ocorreu a concorrência e ambas tinham que disputar os ouvintes, numa luta renhida em que a emissora mais velha levava vantagem, pois contava com nomes famosos como Paulo Cabral, José Lima Verde, João Ramos, Eduardo Campos, Aderson Braz e  tantos outros, A nova emissora, no entanto, tinha ares de atrevimento: iria brigar com o Governo do Estado, fazer desafios, transmitir comícios cujos conceitos eram extremados sobre seus participantes, etc.

Quando menos se  esperava aparece em Fortaleza e fica vindo com freqüência um dos maiores nomes do momento, o animador cearense César de Alencar, famoso em toda a América o Sul e comandante do maior programa de rádio das décadas de quarenta e cinqüenta, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, César de Alencar chegou até a transmitir futebol, imaginem vocês, no Estádio Presidente Vargas, Era ridículo escutá-lo, mas um nome daquele porte tinha o direito até de berrar no microfone e o cearense agradecia a honra enorme.

César trazia sempre alguém com ele e quanto aos valores locais, se ele dissesse que eram bons, nem que não fossem, todos acreditaríamos.

A Rádio Iracema foi ganhando terreno, virou até escola, revelando grandes nomes e servindo de berço para o nascedouro de outra emissora, a Rádio Uirapuru, criada pelo espírito empreendedor de José Pessoa de Araújo e com a colaboração de Aécio de Borba, ambos com procedência da segunda emissora cearense.

Era 1956 quando começaram os preparativos da terceira emissora: José Júlio Cavalcante, Luis Crescêncio Pereira, Afrânio Peixoto e tantos outros trabalhavam noite e dia, a fim de por no ar uma nova estação que iria, em termos definitivos, dar bases próprias e profundas ao jornalismo no Ceará, Quando isso ocorria, no interior do Estado não existiam emissoras de rádio, Tudo se resumia na capital, Vale ressaltar que, mesmo antes da Rádio Iracema, funcionou em Fortaleza uma emissora norte-americana, Era a guerra e, no Pici, instalou-se uma estação ianque, com a finalidade de prestar informações atinentes à Segunda Grande Guerra Mundial, Falava em inglês e rodava programas gravados nos Estados Unidos em enormes discos de cerca de 20 polegadas, ainda hoje existentes aqui em Fortaleza, na fabulosa coleção do Cristiano Câmara, e alguns exemplares com pessoas da família Arruda, Mas essa atividade nos era estranha e somente por muita curiosidade um cearense girava o botão de seu receptor para receber mensagens tão áridas e impróprias à nossa cultura, Além do mais os gringos eram muito antipáticos nas ruas, a bordo de jeeps e em enormes caminhões.., Suas bermudas eram intoleráveis, mostrando pernas indecentes, Se vê-1::Js era um desprazer, para que ouvi-los?

Com as novas tendências do rádio no Brasil inteiro, sua dinâmica mudara muito, A Rádio Nacional, a Tupy, M, Veiga, Tamoio, Jornal do Brasil, disputavam cantores e programas humorísticos, mas, agora, principalmente um jornalismo eficiente, rápido, preciso e através de grandes vozes.

A Rádio Uirapuru surgia com uma mentalidade inteiramente nova e que iria revolucionar,, entre tantas atividades radiofônicas, a transmissão de partidas de futebol, reportagens de um modo geral e, por excelência, o noticiário  através dos boletins de hora em hora e dos grandes jornais.

A primeira equipe a nova emissora trazia profissionais  advindos de pontos os mais diversos,  Alguns de outros Estados, outros das emissoras já existentes e uma grande dos jornais da capital, Assim, pela primeira vez no Ceará, o rádio seria essencialmente jornalístico, muito embora a emissora a seguir viesse a se preocupar com novelas e nunca houvesse se descuidado de seus musicais, Era o rádio novo, valente e audaz.

A direção do novo órgão de comunicação teve o cuidado de chamar a Fortaleza o jornalista Fernando Jaques, famoso por sua intervenção na Rádio Nacional e pela condição de tarimbado profissional, inclusive funcionando muitas vezes na ONU ou mesmo a serviço da ONU (Organização das Nações Unidas), à qual terminou por se integrar.

A notícia no rádio, até então, não diferia muito daquela redigida para o jornal, A Rádio Uirapuru tratou de absorver a técnica já em voga no Rio e em São Paulo, oferecer dimensões radiofônicas às notícias que passaram, incontinente a evitar os adjetivos chocantes, Tornaram-se breves e incisivas e com o cuidado de informar com precisão sobre os fatos narrados, nunca deixando detalhes obscuros.

Começou a especialização de locutores e vozes se adequaram com exatidão às exigências do novo radiojornalismo, destacando-se Carlos Alberto, Palmeira Guimarães, Sérgio Reis e tantos outros. A voz de Jaime Rodrigues, já consagrada em outras emissoras como narrador esportivo, passou a ser escutada em jornais radiofônicos, com muito proveito, diga-se de passagem.

Ao mesmo tempo, a reportagem era exercitada, algumas vezes para ilustrar os noticiosos, Constantemente para formar um programa especializado e em certas oportunidades, para oferecer ampla e independente reportagem, como por exemplo no dia da chegada do presidente de Portugal Craveiro Lopes, hoie nome de rua, não sei bem a razão, pois me pareceu na época uma figura incapaz de marcar páginas da história pátria, muito menos a do Brasil.

O jornalismo era a menina dos olhos  de Afrânio Peixoto, diretor da divisão especializada, Claro que as outras emissoras reagiram  e idênticos cuidados foram adotados pela Ceará Rádio Clube e, em parte, pela Rádio Iracema que iniciava época de desídia.

A Ceará Rádio Clube reagiu de modo espetacular, aproveitando uma equipe de grandes nomes: Aderson Braz, João Ramos, Mozart Marinho, Antônio de Almeida, Augusto Borges e outros que viviam momentos iniciais de sua carreira que poderia ser antecipada como brilhante.

A equipe da Ceará Rádio Clube era tão vasta e brilhante que poderia se dividir em duas emissoras, O conceito da nossa estação pioneira era enorme e poderia patrocinar  uma nova emissora.

Os Diários e Rádios Associados do Brasil estavam  prestes a lançar em Fortaleza a Rádio Verdes Mares, logo após a inauguração da Rádio Uirapuru.

A terceira emissora cearense, no entanto, não parava em suas inovações, Tudo era diferente e hoje, na história do rádio cearense, há um capítulo especial para as transmissões esportivas, Antes da Uirapuru um locutor narrava a partida  e havia um comentarista, Eram famosos Paulo Cabral, antecedido por seu irmão Cabral de Araújo, Afrânio Peixoto, que  atuara na Rádio Iracema e posteriormente na PRE-9, João Ramos, Mozart Marinho, Aécio de Borba (Rádio Iracema), Antônio de Almeida (Rádio Iracema e PRE-9), Jaime Rodrigues (Rádio Iracema), etc.

Começaram as transmissões esportivas da Rádio Uirapuru, Grandes locutores foram trazidos, a um só tempo, para uma mesma equipe, Jaime Rodrigues, Ivan Lima, baiano; mas que vinha do Rio Grande do Norte, Palmeira Guimarães, Maurício Carvalho, Paulo Santos, nome artístico de José Cabral que, mais tarde, voltaria a seu nome verdadeiro, Afrânio Peixoto era o comentarista, Sempre dois locutores narravam em dupla ou um cada tempo e os demais inauguram o trabalho de repórter de pista, coisa absolutamente nova, enquanto surgiam nomes como Astrolábio Filho, Carlos Alberto e outros jovens que terminaram por se firmar.

Não havia opção aos concorrentes: era seguir a mesma linha ou pedir para sair, Cresceram os concorrentes, notadamente a Ceará Rádio Clube que não pretendia ceder o seu lugar na preferência de uma população atônita entre os novos rumos do rádio, absoluto então, pois não havia televisão.

Decorria a fase áurea da Rádio Uirapuru, Magnificamente lançada, quando surge a Rádio Verdes Mares. O fato de ser uma segunda emissora de um mesmo grupo parece ter tolhido os seus primeiros passos.

Novos nomes no rádio, inclusive Wilson Machado e Cândido Colares que vinham chegando do Crato, onde já fora instalada uma emissora dos Diários e Rádios Associados: Rádio Araripe, a primeira, salvo engano, do interior do Estado, seguida de outras emissoras instaladas pelo grupo liderado pelos irmãos José e Flávio Parente, “capitães” da Rádio Iracema de Fortaleza.

Como emissora “associada” foi curta a vida da Rádio Verdes Mares, Paulo Cabral de Araújo, talvez o maior homem de rádio do Ceará e sem dúvida entre os melhores do país, celebrizado como integrante da Ceará Rádio Clube e por suas inesquecíveis e memoráveis campanhas, tendo sido eleito Prefeito de Fortaleza e, posteriormente, deputado estadual, iria deixar os Diários e Rádios Associados, após ter dirigido vários órgãos, inclusive a TV Itacolomy, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Político e empresário, Paulo Cabral adquire o controle maior da Rádio Verdes Mares e, esta, então, procura encontrar definição. Contrata valores das outras emissoras, organiza excelente departamento de notícias e investe, expondo-se à concorrência. Chegam valores de fora, como José Santana e Dirceu Noronha. Novos valores se somam à experiência de Mozart Marinho e a emissora segue o seu destino com Aluízio Girão, Mardônio Sampaio, Edilmar Noroes, Astrolábio Filho, etc.

A gestão Paulo Cabral não foi demorada, no entanto. Submetido a algumas decepções políticas (e ninguém se livra delas), o notável comunicador toma novos destinos.

A emissora em crise sofre alterações em sua sociedade e José Júlio Cavalcante, veterano radialista que já passara pelas outras três emissoras, passa a dirigir a quarta. Antes que assumisse, para disfarçar a crise, a Verdes Mares tornara-se emissora musical. Musical e destituída de qualquer finalidade social como todas as emissoras que, igualmente tendo fracassado, tornaram-se “a voz da música” e outras coisas incoerentes.

José Júlio, no entanto, vinha com muita vontade e garra. Reorganizou-se o radiojornalismo e, com primorosas e agitadas edições  do “radio Notícias Verdes Mares” a emissora passou a ser falada e discutida como nunca. Era mais uma emissora a descobrir o jornalismo atuante e sério, capaz até de se retirar do ar, quando em certo momento era impossível o uso da liberdade de imprensa.

Então a Verdes Mares tinha uma equipe jovem e apaixonada por seus afazeres e tal foi sua posição no cenário das comunicações que o industrial Edson Queiroz se interessou pela citada emissora e, já sendo um de seus acionistas, acabou por adquirir o controle acionário e a emissora despertou para um crescimento nunca mais contido, fundando a seguir a TV Verdes Mares, canal 10, e uma emissora de FM, preparando-se agora para o lançamento de um jornal.

Nesta época era muito grande a luta dentro das dimensões da política partidária. Os partidos hoje extintos, se debatiam ante uma necessidade de divulgação.

Os "Diários Associados" tinham tendência variada no contexto político, aqui no Ceará, mas a verdade é que a ONU reunia a preferência maior dos órgãos de comunicação de um modo geral, ainda mais que eram enormes as figuras de Paulo Sarasate e Adahil Barreto angariando uma simpatia acentuada de estudantes, operários e funcionários públicos. O Estado e outros jornais menores, como Diário do Povo e Gazeta de Notícias, muito embora marcando de modo acentuado, perdia, na opinião pública, a batalha para os jornais como O Povo, Correio do Ceará e Unitário, todos em fase áurea. O rádio, muito noticioso, nunca era porém, por sua própria natureza, muito opinativo. A luta mais notória se travava entre UDN e PSD, com participações do PTB, PSP, PL, PRP, PTN etc, variadas e circunstancialmente mais importantes ou menos importantes.

Surgiu, então, a Rádio Dragão do Mar. Decorria o mais que discutido ano de 1958. Ano marcante, tanto pelo lado amigo como pelo adverso. Brasil, campeão do mundo em futebol, seca, eleições, derrota de Virgilio Távora, a mais dramática que se conhece pelas condições emocionais que se revestiu. Coligação de partidos e as lutas extremadas que levaram à vitória o professor Parsifal Barroso, não afeito ao ódio, mas que foi obrigado a viver em clima de disputa e de golpes lícitos e ilícitos, que importava.

Seria a Rádio Dragão do Mar, a começar pelo nome, uma emissora diversa das demais. Mais política, mais polêmica, preocupada com o interior do Estado e em emitir opiniões. Ao mesmo tempo, como as demais, marcava nas novelas e nos musicais.

Formou audaciosa equipe esportiva e passou a enfrentar a competição pelo prestígio e pela audiência. Não lhe foi difícil um belo lugar ao sol, graças à sua identificação com os problemas do povo. Formou uma imagem tão magnífica que, embora a desprezando, ainda não conseguiu consumi-la.

Lembro-me muito deste ano e do dia de sua inauguração. Eu, que pertencera à Rádio Uirapuru, estava agora, contratado por Paulo Cabral, a serviço da Rádio Verdes Mares.

A nova emissora que surgia era saudada pelas demais que, em cadeia, transmitiam os mais diversos acontecimentos. Iria funcionar, de princípio, no décimo primeiro andar do Edifício do IAPC, na Pedro Pereira, entre Barão do Rio Branco e Major Facundo, mesmo local em que, inicialmente, se instalou a Rádio Uirapuru. Local abençoado, berço de grandes empreendimentos. Cada emissora transmitiria uma solenidade e as outras entrariam em cadeia. Coube à Rádio Verdes Mares transmitir a benção dos transmissores, no distrito de Mondubim, onde ainda hoje estão. E meu professor de grego Monsenhor André Carmuça, era a autoridade religiosa e eu o rádio-repórter, encarregado de dizer para os ouvintes tudo o que ali ocorria.

Foi emocionante. Eu chegara à Rádio Uirapuru como jornalista profissional, mas ela já estava funcionando a todo vapor. A PRE-9 surgiu quando eu era menino. Quando cheguei à Verdes Mares ela já existia e seguia para uma segunda administração. A Dragão do Mar, porém, surgia ante meus olhos de jovem jornalista e ante a minha palavra. Era estupidamente emocional e marcante. Mais tarde, como locutor de rádio já firmado, tive que voltar aos seus microfones para ler programas de políticas partidária. Voltavam os momentos vestibulares da emissora e era gostoso juntar o presente a um passado, ainda arraigado no presente.

A Dragão do Mar revelou muita gente. Deu dimensões definitivas a Paulino Rocha, rapaz de voz característica, invulgar inteligência e que trazia do berço as qualidades de comunicador. Como apresentador de programas esportivos e posteriormente políticos marcou seus caminhos com invulgar entusiasmo e brilhantismo. Como comentarista, analisando partidas e quaisquer outros fatos cabidos da dimensão do esporte, foi original e querido. Sua morte no ano de 1979, em decurso, tomou a cidade de tristeza, pois que ela, essencialmente ela, o consagrara, elegendo-o duas vezes para deputado estadual, repetindo o feito de Wilson Machado da PRE-9, eleito várias vezes.

Marcava na Dragão do Mar uma crônica diária assinada por Blanchard Girao e interpretada por Waldir Xavier, locutor de voz segura, advindo do cast da Rádio Iracema. As novelas eram capazes de concorrer com o elenco de João Ramos, Laura Santos, Maria Jose Braz e tantas criaturas brilhantes da PRE-9, destacando-se José Oliveira Filho, Mário Santos e o ator miraculoso que foi Almir Pedreira, também um dos melhores locutores do país.

Adiante a Dragão do Mar conquistaria outros valores, como Aécio de Borba, que já passara pela Rádio Iracema e pela Uirapuru, Narcélio Limaverde, figura que despontava célere entre as maiores estrelas dos “Associados” e muitos outros.

Estava firmada a emissora. Sua linha política atendia ao PSD de Franklin Chaves, José Martins Rodrigues e outras figuras enormes. Eventualmente atendia ao PTB, em face da sua coligação com o PSD. A linha era vibrante e não sofria sustos.

No rádio sempre tivemos os programas religiosos. Mais programas adventistas, presbiterianos que propriamente programas católicos. Mas as missas mais adequadas a uma transmissão eram levadas ao ar. As emissões tinham as chamadas “preces”,  “hora da prece”, etc.. A Igreja Católica, Apostólica Romana tinha em Fortaleza um jornal intitulado O Nordeste, cujos dias estavam contados, muito embora muito lido notadamente no interior do Estado. Mas se o jornal chegava ao fim, nascia uma emissora de rádio, destinada, de princípio, às tarefas da Igreja Católica, no Ceará.

Os primeiros momentos da Rádio Assunção Cearense, pois é dela que vamos falar, foram aparentemente de grande repercussão. Formou-se, isso já na década de 1960, uma ótima equipe esportiva, na qual desfilaram nomes de grande peso como Luis Cavalcante, de Pernambuco, Carlos Lima, baiano, vindo do Rio de Janeiro, Ivan Lima, José Santana, etc.. Conseguiu a emissora índices enormes de preferência do povo, quando das transmissões esportivas, sendo que a passagem de Carlos Lima foi de um brilhantismo invulgar, ainda hoje lembrado. Sem se definir por inteiro no radiojornalismo, nunca chegando a marcar como no futebol, conseguiu boa receptividade também no setor jornalístico, graças à penetração no interior do Estado, quando a Uirapuru e Verdes Mares pelas péssimas freqüências, não tinham condições para tanto.

A Rádio Iracema fora tomada pela desídia jornalística. Ficavam a concorrer PRE-9, Assunção e Dragão relativamente ao interior. Hoje a Uirapuru tem nova freqüência que a leva para todo o Ceará e  Estados vizinhos.

Várias foram as fases da Rádio Assunção, mas durante anos apresentou com imenso sucesso a equipe esportiva que fora da Dragão do Mar, destacando os nomes de Paulino Rocha e Gomes Farias. Por fim, lamentavelmente iria se conformar em ser uma emissora musical, fingindo atuar em outros setores e repetindo a fase negra da Verdes Mares quando ficou, em 1958, sem anúncios, sem ouvintes e sem dinheiro. O próprio departamento esportivo se locomoveu  com malas e bagagens para a Rádio Verdes Mares que, assim, após longos anos, voltou a dedicar-se aos esportes, alias de modo eficiente e de larga receptividade.

Após estes muitos anos de vida do Rádio no Ceará, verifica-se que esse tipo de atividade de comunicação de massa viveu momentos áureos e momentos difíceis. A vinda da TV Ceará, no início da década de 1960, se não abalou o radio em sua estrutura, é certo que obrigou o radio a modificar-se.

Antes das emissoras de televisão, hoje em número de quatro, (TV Ceará, TV Verdes Mares, TV Educativa, TV Uirapuru), o radio tinha como horário nobre aquele que ia do final da hora do Brasil, então às 19 horas e trinta minutos, até cerca das 22 horas.  Horário das novelas, dos grandes programas de auditório, da apresentação de artistas contratados e foi neste horário que cantaram Orlando Silva, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Alvarenga e Ranchinho, Luis Gonzaga, Vocalistas Tropicais, 4 Azes e 1 Coringa, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto, Marlene, Adelaide Chiozo e tanta gente.

Com a televisão dominando as noites cearenses reservou-se ao rádio uma atividade mais dinâmica durante os dias, apresentando musicais noturnos até que surgiram César Coelho e Carvalho Nogueira que, na Rádio Uirapuru, inauguraram a idéia de que o radio seria importante à noite mesmo diante da televisão. A partir daí voltaram a se valorizar os programas da noite nas emissoras de Fortaleza, experimentando nova dinâmica. Não voltaram os auditórios e nem as novelas. Mas surgiram programas com linhas modernas, no campo do esporte, da informação, programas de saudade, evocando o melhor da música brasileira de outras épocas. Os horários voltaram a se valorizar, inclusive comercialmente  e hoje o rádio noturno é divertido e variado, não apenas no Ceará, mas em todo o Brasil, notadamente em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, haja vista o exemplo da Globo e de outras emissoras de igual valor.

Mesmo concorrendo com a televisão vários nomes ficaram famosos nos programas da noite, como o primoroso escritor Cesar Coelho, o poeta e jornalista Carvalho Nogueira, Colombo Sá e seu humorismo de primeira água, sem ofensas e com requintes de espirituosidade, Juarez Silveira com a sua sobriedade, Nadir Holanda, Almino Menezes e tantos outros. Homens da noite e do radio, como José Domingos (excelente artista) e o enciclopédico desportista Alfredo Sampaio. Provado que o rádio e televisão podiam coexistir sem que se destruíssem, a televisão não consegue diminuir o rádio. Muito pelo contrário, completa, juntamente com a imprensa, essa magnífica atividade informática e diversional.

As transmissões esportivas, mesmo quando os jogos são noturnos, conseguem grande ressonância nos lares e nos ambientes públicos. Os locutores: repórteres, narradores, comentaristas, têm suas atividade comentadas no dia seguinte como um outro espetáculo à parte. O rádio noturno vive, após anos de dolorosa expectativa, a glória de seu renascimento e o seu prestígio se redobra, notadamente ante os públicos mais especializados. Além do mais, o rádio hoje não ocorre apenas em ondas médias e curtas, como antigamente. Temos agora as emissoras de FM, uma opção diferente notadamente para os que estão  nos seus automóveis e veículos diversos à noite, pois difícil será encontrar um carro sem receptor de radio com FM. A Rádio Verdes Mares tem uma emissora de FM, com programação tipicamente musical, mas já noutros estados cuida-se de oferecer a esse novo veiculo uma programação dinâmica, viva e socialmente importante que, de certo, irá contagiar a nossa capital, a bela Fortaleza, quando aqui se instalar a primeira concorrente da nossa única emissora de FM.

Muitas são as emissoras de rádio que, de quando em quando, resolvem permanecer sem interrupção no ar. As de televisão, por sua vez, cada vez que a programação se roforma, mais permanecem em atividade e, assim, rádio e televisão estão coexistindo de modo pacífico.

A moderna eletrônica, através de uma técnica que se projetou após a descoberta do transistor, tornou a atividade radiofônica mais fascinante ainda. Antes do transistor, a  PHILCO, a ZENITH e outras grandes indústrias tentaram o rádio de bolso, produzindo, para tanto, pequenas válvulas e utilizando pilhas ou pequenas baterias.

Era fascinante encontrar alguém esperando ônibus enquanto ouvia seu rádio. Os meninos cercavam pessoa tão afortunada e as perguntas vinham imediatamente. Porém, pela complexidade do sistema, o pequeno rádio a válvula não conseguia um lugar ao sol. Os primeiros receptores de rádio eram enormes e havia mesmo o rádio do tamanho de uma geladeira. Enormes moveis de madeira, mostradores brilhantes e um pequeno catálogo relacionando as emissoras do mundo inteiro.

Nesta época isso era possível. Com o deflagrar da guerra a maneira foi substituída por um material descoberto por Anton Philips e, assim, os receptores ficaram mais leves. Já havia progresso na fabricação de válvulas e condensadores variáveis que, também, ficaram bem menores.

O aparelho começou a ficar mais lógico, mais racional. O transistor viria, em termos definitivos, após a guerra. Foi mesmo descoberto em função da própria guerra, para facilitar as comunicações durante as batalhas.

No Brasil o transmissor só iria se firmar na década de 1960 e, com o Japão recuperado e dedicado à eletrônica, o mundo inteiro seria inundado por minúsculos receptores de rádio, desde menor que uma caixa de fósforos, passando pelo tamanho de uma carteira de cigarros, até modelos muito maiores, mas assim mesmo portáteis.

O contrabando tratou de difundir o progresso e até surgiram colecionadores dos pequenos aparelhos. Outros países entraram na dança industrial e os radiozinhos começaram a chegar, também, de Hong Kong, dos Estados Unidos da América do Norte, do Canadá e até no Ceará se instalou uma fábrica dos mesmos.

Com tanto receptor do mundo, acompanhando o homem em todas as suas atividades, novamente, quando no interior de seu carro, valia a pena fazer rádio.

Difícil uma criatura sem rádio, independente de sua condição social. Mas, assim mesmo, uma crise esperava o rádio.

Fruto da má administração de emissoras que não souberam acompanhar a marcha do tempo, várias entraram em crise. Algumas por não suportarem a concorrência, outras em face de fatores variados. O próprio rádio, como um todo passou a absorver o impacto da televisão e como as televisões nasciam nas emissoras de rádios eis que, pela novidade, o novo meio de comunicação levaria o mais antigo a um desprezo e quase total esquecimento. Sempre que uma emissora de rádio anunciava sua televisão, imediatamente se sabia que a primeira ia quase se acabar em favor da segunda, até mesmo com o desvio total de seus recursos e o aproveitamento dos seus profissionais.

Para remediar a crise eis que, infelizmente, nasce o grande engano: o rádio musical, frio, sem personalidade, sem vida, sem notícia, sem opinião alienante e falso. No Brasil caberia muito bem, pois saíamos de uma ditadura em que, proibido de opinar, o povo quase se acostumara a não participar. Caíra Getúlio Vargas, viera no supremo mando do país  Eurico Gaspar Dutra, num período ainda marcado pela violência sanguinária, pois, saídos do silêncio e da falta de exercício dos direitos que dissessem respeito ao Estado, muitos cidadãos quiseram fazer em meses a recuperação democrática que não se conseguira nos subterrâneos, falando baixo para que Vargas não escutasse. O próprio Vargas, perdoado em seus defeitos e evocado e exaltado em suas qualidades, voltaria ao Governo da República. Mais tarde, em 1954, agosto, o suicídio, a crise, e o desfilar de nomes que não conseguiam esquentar os seus acentos. A euforia do governo de J.K, com o Brasil, explodindo em progresso, mas o analfabetismo ainda dominando um percentual muito alto da população brasileira. A angústia da renúncia de Jânio Quadros e as seguintes desolações político-administrativas que antecederam à Revolução de 1964, tudo isto e tanta coisa que não caberia aqui, levaram o brasileiro a gostar de se isolar das conturbações nacionais.

Ouvir música, somente música, como diziam as emissoras fracassadas, era melhor, talvez, que acompanhar a inflação, o eterno reivindicar salarial, as contradições do Lacerda e os conflitos ilógicos de partidos políticos sem fé, doutrina e rumo. Era o rádio musical, sem jornalismo e sem profissionais, capaz de criar o desemprego e a desvalorização profissional de técnicos os mais diversos e de jornalistas e radialistas. No Brasil inteiro proliferou a descoberta e o público passou a ser enganado de modo impune, surgindo, então, o engodo de programadores musicais, pois as citadas emissoras procuravam firmar a idéia de que seus roteiros musicais eram elaborados por técnicos, pesquisadores e mais alguns distintivos.

A falta de mérito do rádio musical ressalta fácil aos olhos de qualquer um, a partir da falta de criatividade até a irresponsabilidade perante o Governo que, pelo órgão competente, concedeu autorização para exploração do serviço de radiodifusão.

Mas como tudo no mundo tem suas compensações, na mesma época começaram a ganhar estrutura os Cursos de Jornalismo e com outras denominações, hoje Departamentos de comunicação social. A preparação cuidadosa de novos profissionais iria, de certo medo, despertar o empresário para utilização de jovens tecnicamente formados para o difícil mister. O jornalismo, atingindo o cinema, teria que voltar ao rádio com o máximo de suas forças e, enquanto nas províncias, ainda se cuidava do rádio musical, nos maiores centros era incrementado o radiojornalismo, lado a lado com o telejornalismo e a imprensa. Era a recuperação, descobrindo o único destino compatível com as finalidades públicas do rádio: jornalismo, utilidade pública, cultura, etc.

No Ceará, mais precisamente em Fortaleza, a primeira emissora que tentou a fórmula da música, tão-somente música, foi a Verdes Mares, conforme já dissemos. Mas esta partiu para uma reação espetacular e, gradualmente, foi se recriando e hoje é uma das maiores potências do rádio nordestino. Seu caminho em busca da música exclusiva deveu-se em parte por sua crise e em grande parte pelo espírito de imitação. Nem todos são capazes de criar e como no Rio havia a Tamoio, fácil foi seguir-lhe as pegadas, muito embora sem nenhum preparo para tanto.

O rádio musical não produz prestígio para a emissora. Não lhe oferece renome e nem respeito, uma vez que os ouvintes se comunicam diretamente com cantores, conjuntos, orquestras e gravadores, Mas aí avulta uma grande responsabilidade que, por inteiro, cabe a um órgão denominado Instituto Brasileiro de Opinião Pública, IBOPE, cujas pesquisas conduzem o rádio quase à inoperância, Por conta do IBOPE muitas programações se alteraram para pior, grandes nomes foram arquivados, apresentadores deixaram de aparecer e até mesmo grandes cantores e intérpretes desapareceram das paradas.

Ocorre, no entanto, que as  pesquisas tão faladas passaram a ser aceitas pelas agências de publicidade, grandes firmas, anunciantes efetivos ou em potencial e gerou-se um círculo vicioso. Ninguém se deu ao cuidado de ana1isar os dados coletados, a veracidade dos mesmos numa interpretação social da opinião pública. Mas o IBOPE, desvinculado de qualquer possibilidade de verificação de suas atividades, ficou às soltas, criando uma situação insustentável para o rádio produzido, criado, vivido, trabalhado.

Sendo muito difícil encontrar-se um pesquisador do IBOPE e poucos sendo os brasileiros que o conhecem, mais difícil era, na verdade, contestar as informações, a partir da denominação do Instituto, aparentemente oficial. O descaso deu forças à entidade em causa e o comodismo o elegeu, pois era mais fácil crer em alguma coisa, por mais falsa que fosse, do que partir do nada.

A necessidade de pagamento antecipado de suas pesquisas e outros inconvenientes tiraram algumas emissoras do páreo. Enquanto isso outras, menos escrupulosas, passavam a ensinar ao público como fraudar. As emissoras interessadas em boas posições passaram, simultaneamente, a fazer pesquisa e, ato contínuo, a dar prêmios a quem dissesse que estava sintonizado nelas e aconselhavam: "Se alguém bater e perguntar que emissora você está ouvindo, diga que é emissora X, pois assim você ganhará prêmios e mais prêmios".

O ouvinte podia, naquela hora, estar sintonizado numa outra emissora de rádio, mas respondia aquela, uma vez que podia ser que o pesquisador fosse o Papai Noel da empresa. Essa técnica era e é usada nas épocas de pesquisa do IBOPE, o que significa dizer que os simuladores, pelo menos de leve, também acreditam no IBOPE o que, por si só, já demonstra o nível em que atuam.

Enquanto escrevemos este trabalho lemos no Estado de São Paulo que os dirigentes do IBOPE reconheceram as fraudes que marcaram suas últimas pesquisas no Rio de Janeiro. Imaginem em um Brasil mais provinciano ...

Mesmo na Câmara Federal e até Ministros já se voltaram contra tais pesquisas, cujos resultados parecem irreais e com certeza são deformantes. Falta, no entanto, a reação dos cientistas sociais que, por lhe dizer de perto, devem se preocupar com as manifestações indevidas que podem levar criaturas massificadas a um destino incerto e alienado.

O rádio, no Ceará, hoje vive um retrocesso. Se a Rádio Verdes Mares se redimiu, deixaram de fazer o verdadeiro trabalho de comunicação a Rádio Assunção Cearense e (recentemente) a Rádio Iracema e a Rádio Dragão do Mar, o que resume o rádio cearense a três emissoras de AM, em Fortaleza: Uirapuru, Verdes Mares e Ceará Rádio Clube. Estas ainda resistem, pois procuram acompanhar o desenrolar do rádio nas grande metrópoles. A Rádio Iracema da capital e algumas de suas emissoras do interior do Ceará foram adquiridas pelo grupo econômico do deputado Adauto Bezerra, o que pode lhe valer uma recuperação. A Rádio Assunção, mesmo tendo se iniciado como órgão do Arcebispado, entregou-se a um rádio alienante e que se distancia, por inteiro, dos principias da Igreja Católica, defendida com unhas e dentes, notadamente em Puebla e nas reuniões da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, discordância que nos deixa uma esperança de que um dia restabeleça a sua atividade com a qual dignifique os profissionais. A Rádio Dragão do Mar poderá reacender sua melhor chama se, na verdade, seus destinos interessam a um grupo político que cresceu muito nos últimos anos e que é liderado por César Cals de Oliveira Filhos.

O rádio cearense já chegou a ser considerado um dos melhores do país, mas não conseguiu manter o ritmo de trabalho e criatividade, perdendo um pouco em sua posição. Mas agora, pelo que se prenuncia, é provável uma retornada de posição. O fato, no entanto, é que a dinâmica das emissoras das cidades mais desenvolvidas leva o rádio para novas concepções, onde o jornalismo e a utilidade pública terão lugar de proeminência, devolvendo à radiodifusão a possibilidade de atuar socialmente e de socialmente ajudar.

Nesses mais de quarenta anos de sua existência a história do rádio local não é apenas de emissoras, é acima de tudo o desfilar de criaturas inteligentes e que marcaram época, assinalando de modo indelével a vida da cidade, do Estado e até da região. Memorável o desempenho de locutores, redatores, produtores, homens do rádio, enfim.
Houve os primeiros nomes, com locutores característicos de uma época, como Cabral de Araújo, José Limaverde, Heitor Costa Lima, José Cláudio de Oliveira, Lima Filho, José Júlio Cavalcante,; cronistas como Armando Vasconcelos, Carvalho Nogueira, Edmundo Vitoriano, César Coelho, Blanchard Girão que se exaltaram nas mais diversas funções criativas em tão nobre setor; soberbas presenças nas personalidades marcantes de Manuel Eduardo Pinheiro Campos, Paulo Cabral de Araújo. O desfilar de valores da estirpe de João Ramos, Mozart Marinho, Wilson Machado, Aderson Braz, Almir Pedreira, Waldir Xavier, Jaime Rodrigues, Ivan Lima, Maurício Carvalho, Carlos Alberto, Palmeira Guimarães, Juarez Silveira, José Cabral ( o mesmo Paulo Santos), José Santana, José Monteiro, Júlio Sales, Gomes Farias. Figuras ímpares como Paulino Rocha e Peteleco. Jovens como Vilar Marques, Francisco Rocha, Antônio Barros, Moésio Loiola, Gomes Farias e Wilton Bezerra. Figuras marcadas pela competência e pela lealdade, como Lúcio Sátiro e Narcélio Limaverce. Criaturas inventivas e incontidas como Paulo Limaverde. Vozes únicas como Baman Vieira e Heraldo Menezes. Jornalistas inspirados como J. Ciro Saraiva, Hermano Justa, Edgar Costa, Carlos Pontes, Mário Pontes e tantos outros. Rádio de dirigentes preciosos como Afrânio Peixoto e Rômulo Siqueira cujas pegadas jamais serão apagadas, pela honestidade com que marcaram o chão nosso de cada dia. Rádio atrevido nas mãos  realizadoras de José Pessoa de Araújo e dos irmãos Parente. Rádio da inteligência dos grandes improvisadores, imensos corações que supriram e suprem, sem que o público saiba, as maiores lacunas e deficiências.

Rádio da minha vida, do meu entusiasmo e do meu protesto ante os que o querem ferir mortalmente. Rádio da vida e da cidade viva, imenso ouvido social à espera de mensagens marcadas pela inteligência, pela cultura, pela fé.